A ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA E
A PSICOLOGIA HUMANISTA
NOSSOS VALORES, NOSSO TRABALHO, NOSSAS VIDAS
O que é a Abordagem Centrada na Pessoa (ACP)?
A Abordagem Centrada na Pessoa é um modelo de pensamento e de atuação em Psicologia, Ensino, Educação, Administração e em outras áreas do conhecimento, criado por Carl Rogers, que possibilita para a pessoa a retomada da responsabilidade por si mesma, tornando-a protagonista de sua própria vida. Isto se dá através de atitudes facilitadoras do crescimento psicológico e do desenvolvimento das potencialidades do ser humano.
Sendo a mais conhecida das Psicologias Humanistas, a Abordagem Centrada na Pessoa considera que o ser humano é determinado por sua própria vontade subjetiva, ainda que influenciado por todas as circunstâncias de sua existência. Neste sentido então, ele é absolutamente livre para escolher entre as opções existentes, ainda que poucas e limitadas, responsabilizando-se pelas consequências que delas advirem.
Considera, ainda, que o ser humano tende a se desenvolver da forma mais construtiva e positiva que puder, dentro das condições possibilitadas por suas circunstâncias. Esta tendência é chamada de TENDÊNCIA ATUALIZANTE, sendo, para a Abordagem Centrada na Pessoa, a única força motivacional humana, de forma que todas as outras motivações lhe são subordinadas.
Tendência Atualizante
“Todo organismo é movido por uma tendência inerente para desenvolver todas as suas potencialidades de maneira a favorecer sua conservação e enriquecimento”. (Rogers, 1977)
CONDIÇÕES FACILITADORAS DO CRESCIMENTO PSICOLÓGICO (atitudes do facilitador)
Compreensão Empática:
É a capacidade de em apreender o vivido de outra pessoa, seus sentimentos e percepções, considerando os valores e vivências desta.
Consideração Positiva Incondicional:
É a aceitação do outro enquanto um ser significativo e digno de consideração, independentemente de quaisquer requisitos ou condições. É importante ressaltar que considerar de forma positiva e incondicional não significa concordar com tudo o que o outro faz, nem com sua atuação no mundo.
Autenticidade ou congruência:
Capacidade de ser o que realmente se é, com o reconhecimento e aceitação de si próprio e de suas próprias vivências, de forma clara e voltada para a relação com o outro. Integra pensamentos, sentimentos e comportamentos.

Carl Rogers
Um dos fundadores da Psicologia Humanista e Criador da Psicoterapia Centrada no Cliente e, posteriormente, da Abordagem Centrada na Pessoa, Carl Rogers (1902-1987) forneceu hipóteses que abriram um novo campo de pesquisa, desenvolvendo uma abordagem para todas as relações interpessoais: a Abordagem Centrada na Pessoa.
Duas vezes eleito presidente da Associação Americana de Psicologia, recebeu desta os prêmios de melhor contribuição científica e o de melhor profissional.
Rogers morreu em 4 de fevereiro de 1987, mesmo ano em que foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, aos 85 anos de idade.
Qual é o impacto de Carl Rogers ainda hoje? Neste momento de crise econômica, social e humana em que os valores individuais tendem a desaparecer e que a vida deixou de ter um valor único, a mensagem de Rogers mostra-se indispensável para a compreensão do homem como um ser que dá sentido ao social, num conceito global de organismo, em todos os níveis de organização, numa posição profundamente humanista.
“O ser humano, como todos os organismos, tende a crescer e a se atualizar. É claro que todos os fatores sociais, econômicos e familiares podem interromper esse crescimento, mas a tendência fundamental é em direção ao crescimento, ao seu próprio preenchimento ou satisfação. A pedra fundamental da psicologia humanista pelo menos como eu vejo, é, portanto, essa crença de que o ser humano tem um organismo positivo e construtivo”.
Carl Rogers
O NASCIMENTO DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA
Em 11 de dezembro de 1940 Carl Rogers proferiu a palestra.
“Os mais recentes conceitos em psicoterapia”, na Universidade de Minesotta. Essa nova psicoterapia, como ele próprio denominou, propunha:
1. Uma maior confiança no impulso do indivíduo em direção ao crescimento, saúde e ajustamento; 2. A terapia como uma maneira de libertar o cliente para o crescimento e o ajustamento normais; 3. Ênfase nos aspectos afetivos da situação e não somente nos intelectuais; 4. Privilégio da situação imediata mais do que ao passado; 5. Relacionamento terapêutico em si mesmo como uma experiência de crescimento.
Em função da reação ambígua da platéia, que reagiu palmas e vaias, Rogers considerou que estava trazendo uma contribuição original. Esta palestra marcou o nascimento da Abordagem Centrada na Pessoa, e se transformou no cap. 2 do livro Psicoterapia e Consulta Psicológica, lançado em 1942.
“Parece absurdo alguém poder nomear o dia que a Abordagem Centrada na Pessoa nasceu. Contudo, eu sinto que é possível nomeá-lo como sendo o dia 11 de dezembro de 1940.” (Carl Rogers)
CELEBRAÇÕES DOS 70 ANOS DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOAA
Em 2010, o CPHB – Centro de Psicologia Humanista de Brasília, em parceria com o CPP – Centro de Estudos da Pessoa (RJ) e com o Espaço Viver (SC), promoveu um evento para celebrar os 70 Anos da Abordagem Centrada na Pessoa.
O evento teve duração de quase três meses, e ocorreu em várias cidades do País, contando com presenças de pessoas de grande relevância para a Abordagem Centrada na Pessoa, tanto em nível nacional como internacional!
CELEBRAÇÕES DOS 80 ANOS DA ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOAA
Em 2020, repetimos a dose, para celebrar os 80 Anos da Abordagem Centrada na Pessoa. Desta feita, em parceria com o Projeto Conexão Formativa. O evento foi realizado no dia 11 de dezembro, por vídeo-conferência.
Neste evento, contamos sobre o Florescimento da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil, desde os primórdios até 2020. Foram 6 horas de relatos emocionantes, através de pessoas que muito nos honraram com sua presença.
Os vídeos desse evento você encontra aqui!
1 – O Florescimento da Abordagem Centrada na Pessoa no Brasil – Abertura
2 – O início da Abordagem Centrada na Pessoa -Ir. Henrique Justo
3 – Dos primórdios a Arcozelo – Rogerio Buys
4 – Plantando Sementes: de Arcozelo ao I Encontro Nordestino da Abordagem Centrada na Pessoa – Marcia Tassinari
5.1 – Plantando Sementes: Do I Encontro Nordestino ao I Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa (parte 1) – Sonia Gusmão
5.2 -Plantando Sementes: Do I Encontro Nordestino ao I Fórum Brasileiro da Abordagem Centrada na Pessoa (parte 2) – Sonia Gusmão
6 -A História dos Fóruns Brasileiros da Abordagem Centrada na Pessoa, de 1996 a 2005 – Ana Lucia Palma
7 – A História dos Fóruns Brasileiros da Abordagem Centrada na Pessoa, de 2007 a 2020 e a criação do Programa de Financiamento Coletivo
“Existem certamente homens bons, fortes e bem sucedidos no mundo — santos, sábios, bons líderes, responsáveis, candidatos a políticos, estadistas, homens de espírito forte, vencedores mais do que perdedores, pais em vez de filhos. Tais pessoas estão à disposição de quem quiser estudá-los como eu fiz. Mas nem por isso deixa de ser verdade que existem muito poucos, embora pudesse haver muitos mais, e são freqüentemente maltratados pelos seus semelhantes.
Assim, isso também deve ser estudado, esse medo da bondade e da grandeza humanas, essa falta de conhecimento sobre como ser bom e forte, essa incapacidade para converter a nossa ira em atividades produtivas, esse temor da maturidade e da sublimação que nos chega com a maturidade, esse receio de nos sentirmos virtuosos, de nos amarmos a nós próprios, de sermos dignos de amor e de respeito. Especialmente, devemos aprender como transcender a nossa tendência insensata para deixar que a compaixão pelos fracos gere o ódio pelos fortes.
É essa espécie de pesquisa que recomendo mais insistente e urgentemente aos jovens e ambiciosos psicólogos, sociólogos e cientistas sociais em geral. E a outras pessoas de boa vontade, que querem ajudar a construir um mundo melhor, recomendo veementemente que considerem a ciência — a ciência humanista — uma forma de fazer isso, uma forma muito boa e necessária, talvez até a melhor de todas.
Simplesmente, não dispomos hoje de conhecimentos bastante idôneos para avançar na construção de Um Mundo Bom. Não dispomos sequer de conhecimentos suficientes para ensinar aos indivíduos como se amarem uns aos outros — pelo menos, com uma razoável dose de certeza. Estou convencido de que a melhor resposta está no progresso do conhecimento”.
Abraham Maslow – Introdução à Psicologia do Ser

O Nascimento da Psicologia Humanista
Elias Boinan Jr.*
A Psicologia Humanista é marcada por um compromisso de engajamento em favor da mudança social e cultural, em direção a uma sociedade de valores mais humanos, menos controladora, mais atenta às necessidades intrínsecas de auto-realização, mais criativa e lúdica, envolvendo relações pessoais mais abertas, autênticas, auto-expressivas e prazeirosas, onde a pessoa, em sua liberdade e autodeterminação no desenvolvimento de suas possibilidades, seja o valor supremo, contra todos os dogmas, valores e autoridades externamente constituídas.
TEMÁTICA:
– Ênfase na noção de Saúde
“Em seu livro Introdução à Psicologia do Ser, de 1957, Maslow aponta para a necessidade do desenvolvimento de uma Psicologia da Saúde, criticando as teorias que generalizam suas conclusões sobre o ser humano a partir de dados obtidos quase que exclusivamente no estudo de indivíduos mentalmente perturbados, resultando conseqüentemente em um retrato pessimista e desabonador da natureza humana.
Maslow, ao contrário, se propõe o estudo dos melhores exemplares da espécie, por ele chamados personalidades auto-atualizadoras, dando início à tradição humanista de abordar a Psicologia a partir do prisma da saúde e do crescimento psicológico.
Também, em sua proposta de enfatizar o desenvolvimento das melhores capacidades e potencialidades do ser humano, a Psicologia Humanista é muitas vezes identificada como o Movimento do Potencial Humano. Assim, ao invés de empenhar-se em exaustivas descrições e teorizações sobre os mecanismos das enfermidades psíquicas, reservando à saúde a definição negativa de ausência de doença, é mais típico da Psicologia Humanista buscar definir as características do pleno e saudável exercício da condição humana, em distanciamento do qual as patologias podem então ser entendidas.
– Ênfase nas capacidades e potencialidades características e exclusivas da espécie humana.
Assim, critica a tendência a generalizar conclusões experimentais obtidas a partir de pesquisas realizadas quase que exclusivamente com animais, assim como a forte tendência da psicologia experimental a, mesmo quando dedicada a trabalhos com pessoas, centrar-se em aspectos fisiológicos, ou muito parcializados, perdendo de vista a própria dimensão psicológica característica do ser humano, que deveria em princípio ser o enfoque prioritário de uma ciência dedicada ao estudo da mente e da psiquê.
Assim, a volta ao humano como objeto de estudo é uma das bandeiras do Movimento, importante a ponto de fornecer-lhe o título designativo. Qualidades e capacidades humanas por excelência, tais como valores, criatividade, sentimentos, identidade, vontade, coragem, liberdade, responsabilidade, auto realização, etc., fornecem temas de estudo típicos das abordagens humanistas.
Essas e outras temáticas, igualmente características (organismo, self, significados, intencionalidade, necessidades básicas, experiência subjetiva, encontro, etc.), estão também associadas à visão de homem, à proposta de Ciência, e aos métodos e técnicas desenvolvidos e assumidos pela Psicologia Humanista.
“A Psicologia Humanista se compromete a estar sempre voltada a favorecer o movimento da aprisionada alma humana, em sua busca de um mundo que se possa chamar humano, e em que seja realmente um prazer viver.”
*Elias Boainain Jr. definia-se como um “psicólogo transpessoal rogeriano”. Foi membro fundador e conselheiro do Núcleo Paulista da Abordagem Centrada na Pessoa, professor das Faculdades Metropolitanas Unidas, da Universidade de Mogi das Cruzes, e da Universidade de Taubaté, bem como docente do Curso de Especialização em Abordagem Centrada na Pessoa do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo.
Também fez parte da equipe docente do Curso de Formação em Abordagem Centrada na Pessoa, promovido Centro de Psicologia da Pessoa-RJ. Mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo, onde integrou o Laboratório de Estudos e Pesquisas do Potencial Humano. Dedicou-se profundamente ao estudo da integração entre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Psicologia Transpessoal.
VISÃO DE HOMEM
Enxergando o homem como um todo complexo e organicamente integrado, cujas qualidades únicas vêm de sua configuração total, os humanistas rejeitam as concepções elementaristas e fragmentadoras da psiquê. Vêem no homem uma natureza tal que a totalidade da pessoa humana é sempre maior que a soma de suas partes tomadas isoladamente, e sua compreensão organísmica do ser inclui suas raízes biológicas.
Assim, concebem o homem como marcado pela necessidade, que vêem como intrínseca a todo organismo vivo, de atualizar seu potencial e se tornar a totalidade mais complexa, organizada e autônoma que for capaz. Esta hipótese da necessidade de auto-realizaçãofornece, em diversas versões, a teoria básica de motivação da maioria das psicologias humanistas.
Igualmente associada à concepção holista, está a compreensão que os humanistas em geral têm do homem como implicado e configurado – mas não determinado – em seu ambiente, seja este físico, fenomenológico-experiencial, relacional, ou sócio-histórico-cultural.
O ser humano, na visão humanista-existencial, é proposto como um ser essencialmente livre e intencional.
Enfim, vendo o homem como um ser em busca e construção de si mesmo, cuja natureza continuamente se desvela e exprime no realizar de suas possibilidades e na atualização de seu potencial, compreendem os humanistas que só se é pessoa, só se é realmente humano, no autêntico, livre e integrado ato de se desenvolver.
Daí o generalizado consenso, que alguns entendem como a característica mais marcante da visão de homem que a Psicologia Humanista apresenta, em rejeitar concepções estáticas da natureza humana, considerada antes como algo fluido: uma tendência para crescer, um movimento de sair de si, um projetar-se, um devir, um incessante tornar-se, um contínuo processo de vir a ser.
PSICOTERAPIA, CURSOS, WORKSHOPS E PROGRAMAS DE CRESCIMENTO PESSOAL
É no campo das psicoterapias e técnicas de crescimento pessoal, mais do que em qualquer outro, que a contribuição da Psicologia Humanista é especialmente exuberante e espetacular, resultando em uma verdadeira revolução nos conceitos e formas de ajuda psicológica.
Embora a diversidade das teorias e técnicas psicoterápicas abrangidas pela Psicologia Humanista seja quase inumerável, o reconhecimento do potencial positivo e saudável da natureza humana tende a congregá-las em um objetivo de trabalho comum. Para a Psicologia Humanista, o objetivo de qualquer tratamento ou trabalho de desenvolvimento pessoal pode ser formulado numa frase quase redundante: levar a pessoa a ser ela mesma.
Propiciar ao cliente, ou estudante, a conquista de uma existência autêntica, autoconsciente, transparente, espontânea, verdadeira, congruente e natural, sem máscaras, jogos, couraças ou divisões (splits) internas: eis o que pretendem os humanistas.
Assim, é bastante generalizada a concepção de que toda psicoterapia bem sucedida é um processo de aprendizagem profunda e ampla, assim como toda aprendizagem verdadeiramente significativa é profundamente liberadora e curativa, sendo os diversos métodos humanistas utilizados quase que indiferenciadamente no consultório e na sala de aula.
Noções existencialistas do homem como um ser de natureza dialogal, que só se mostra – e verdadeiramente é – no encontro pessoal, tem favorecido as terapias relacionais, em que o terapeuta abdica das posturas e defesas profissionais, para entrar em relação como pessoa real, pois é no encontro de pessoa para pessoa, na relação Eu-Tu, que, acreditam os humanistas, a mudança se dá.
O extraordinário desenvolvimento de terapias e técnicas de trabalho com grupos, especialmente na forma de vivência intensiva, é uma das tendências que marca a Psicologia Humanista.
Enfim, é na aplicação de suas idéias, muitas vezes taxadas de ingênuas ou utópicas, e no sucesso e aceitação de suas práticas, que a Psicologia Humanista tem se consolidado como uma psicologia afinada ao Zeitgeistde nossa época, em que apesar de toda crise, amargura, cinismo, solidão e desesperança, o anseio mudo e oculto por uma vida mais autêntica e humanizada torna-se eloqüente e fulgura ao encontrar quem nele acredite e se disponha a ajudar.
BOAINAIN Jr., Elias Transcentrando: Tornar-se Transpessoal – elementos para uma aproximação entre a Abordagem Centrada na Pessoa e a Psicologia Transpessoal.
TEXTO COMPLEMENTAR
As Condições Necessárias e Suficientes para a Mudança Terapêutica de Personalidade
Em seu artigo “As condições necessárias e suficientes para a mudança terapêutica de personalidade” (1957, In Wood, 1994), Rogers afirma que se as seis condições abaixo existirem e persistirem durante certo período de tempo, estas condições serão suficientes para provocar a mudança construtiva da personalidade e quaisquer outras não serão necessárias. Essas condições são:
- “Que duas pessoas estejam em contato psicológico.
- Que a primeira, a quem chamaremos cliente, esteja em estado de incongruência, estando vulnerável ou ansiosa.
- Que a segunda pessoa, a quem chamaremos de terapeuta esteja congruente ou integrada na relação.
- Que o terapeuta experiencie consideração positiva incondicional pelo o cliente.
- Que o terapeuta experiencie uma compreensão empática do esquema de referência interno do cliente, e se esforce por comunicar esta experiência ao cliente.
- Que a comunicação ao cliente da compreensão empática do terapeuta e da consideração positiva incondicional seja efetivada, pelo menos num grau mínimo.”
Analisando as seis condições propostas por Rogers, vemos que a primeira é circunstância fundamental, uma vez que sem ela, todas as outras são inviabilizadas. A segunda condição refere-se aos motivos que levam o cliente a nossa presença. A terceira, a quarta e a quinta condições são atitudes pessoais do terapeuta, pertencendo a sua dimensão pessoal, e a sexta condição se apresenta como um aspecto da relação entre terapeuta e cliente.
As atitudes facilitadoras do crescimento psicológico
São as condições pessoais do terapeuta as que Rogers denominou Atitudes Facilitadoras do Crescimento Psicológico, e que passamos a analisar a seguir.
Congruência
“Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu fosse alguma coisa que não sou” (Rogers, 1961, pag. 19).
“Acho que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim mesmo
aceitando-me, e posso ser eu mesmo” (Rogers, 1961, pag. 20).
A congruência é um estado interno de liberdade psicológica que permite ao terapeuta ser verdadeiro e transparente, possibilitando sentir-se livre, integrado e autêntico na sua atuação. Ocorre pelo perfeito alinhamento entre a cognição e o afeto quanto ao fato de estar em relação com aquele cliente, o que possibilita uma predisposição a um comportamento correspondente a este alinhamento. (Palma, 2007).
Não importa se este alinhamento é contra ou a favor das condições ideais para a psicoterapia (e muitas vezes não é). Assim, o terapeuta pode estar se sentindo confortável ou desconfortável em relação ao cliente ou por motivos pessoais, mas se for capaz de reconhecer este estado, representá-lo afetivamente e comunicar isso ao cliente, estará sendo congruente, e a atitude de congruência continuará a ser facilitadora do crescimento do cliente.
Com o conhecimento de si alinhado com o afeto sobre si, o terapeuta pode, num segundo nível de percepção, avaliar-se a cada momento da terapia, e comportar-se de forma compatível com esse alinhamento. Poderá mostrar-se como é, mesmo com algum receio, mas sem fachadas ou máscaras.
Rogers aponta a congruência como uma das aprendizagens significativas ao longo de sua vida, e que se mostrou como uma das atitudes facilitadoras em psicoterapia.
Consideração Positiva Incondicional
“Uma outra questão é saber se poderei aceitar cada faceta desta outra pessoa tal como me é apresentada. Posso acolhê-la tal como ela é? Poderei comunicar esta atitude? Ou poderei acolhê-la apenas condicionalmente, aceitando alguns aspectos de seus sentimentos e silenciosa ou abertamente, desaprovar seus outros aspectos? Minha experiência tem mostrado que se minha atitude é condicional, então o cliente não poderá mudar ou crescer naqueles aspectos em que não o posso acolher completamente”. (Rogers, 1961)
A consideração positiva é caracterizada por uma atitude de receptividade quanto ao mundo interior experiencial do cliente (Lietaer, 1984); é o sentimento que o terapeuta tem ao aceitar verdadeiramente cada aspecto da experiência interna do cliente como sendo uma parte dele. Envolve tanto a aceitação da expressão de sentimentos “bons”, positivos, maduros, confiantes e socializados do cliente, como a expressão de sentimentos (considerados) “maus”, negativos, dolorosos, defensivos ou anormais. Envolve também a aceitação da consistência ou da inconsistência do cliente. (Rogers, 1957). Considerar positivamente é aceitar.
Aceitação incondicional significa que a atitude de consideração positiva do terapeuta com relação ao seu cliente não depende de nenhum outro fator para que possa acontecer. Não é necessário que o cliente se apresente desta ou daquela forma, que faça ou deixe de fazer qualquer coisa, para que o terapeuta possa aceitar qualquer sentimento ou pensamento que o cliente traga consigo para o campo relacional. O cliente tem a liberdade de sentir tudo, qualquer coisa que esteja experienciando, e não precisa cumprir nenhuma condição (se, quando, porque) para ser aceito.
Importante observação é que a consideração positiva incondicional é atitude relacionada à experiência interna do cliente (sentimentos, fantasias, desejos e pensamentos), sem julgamentos nem condições, não significando concordância ou aprovação de todos os seus comportamentos.
Quando o terapeuta aceita verdadeiramente a outra pessoa, tal aceitação se manifesta na ausência de julgamentos e condenações, e em expressões que mostram ao cliente que o terapeuta o está ouvindo e aceitando a sua experiência. Às vezes simples movimentos de cabeça e um silêncio respeitoso são capazes de explicitar a aceitação.
Entretanto, se esses comportamentos de “demonstrar aceitação” forem apenas superficiais, sem que haja uma aceitação atitudinal do cliente por parte do terapeuta, em algum momento a não aceitação do terapeuta aparecerá na relação terapêutica, e o vínculo de confiança será quebrado.
Compreensão Empática
“Poderei permitir-me entrar completamente no mundo dos
sentimentos do outro e das suas concepções pessoais e vê-los como ele os vê? Poderei entrar no seu universo interior tão plenamente que
perca todo o desejo de avaliá-lo ou julgá-lo? Poderei movimentar-me com suficiente delicadeza para me movimentar livremente, sem
esmagar significações que lhe são preciosas? Poderei compreender esse universo tão precisamente que apreenda, não apenas as significações da sua experiência que são evidentes para ele, mas também as que são só implícitas e que ele não vê senão obscura e confusamente? Poderei ampliar ilimitadamente essa compreensão?” (Rogers, 1961)
A compreensão empática é uma atitude do terapeuta que o torna capaz de se aproximar o máximo possível da experiência genuína vivenciada pelo cliente, a partir do ponto onde este se encontra, para poder sentir o seu mundo privado tão precisamente ”como se” fosse ele próprio. Tão perto quanto possível para apreender o “vivido” dele, mas longe o suficiente para não se perder da sua própria experiência naquele momento.
O mundo do cliente se mostra suficientemente claro para o terapeuta poder se mover nele livremente, e comunicar os significados de sua compreensão, tanto de conteúdos conhecidos pelo cliente, mas também de conteúdos apenas vagamente conscientes.
Para o terapeuta, a compreensão empática é eficaz instrumento para que possa apreender exatamente os sentimentos do cliente, não tendo dúvidas sobre o significado do que o cliente quis significar, seus comentários sejam perfeitamente adequados ao estado de espírito e conteúdo do cliente, e o seu tom de voz seja acolhedor, propiciando que o cliente compartilhe seus sentimentos. (Rogers, 1957). Desta forma, e sentindo-se compreendido e acolhido pelo terapeuta, esta é uma atitude de grande impacto terapêutico para o cliente.
A importância da sexta condição
“Que a comunicação ao cliente da compreensão empática do terapeuta e da consideração positiva incondicional seja efetivada, pelo menos num grau mínimo”.
Se o cliente não for capaz de perceber de forma alguma as atitudes facilitadoras do terapeuta, é como se elas simplesmente não existissem na relação, e o processo terapêutico não acontecerá. É importante salientar que, sendo a relação terapêutica uma relação pessoal e íntima, o cliente perceberá a qualidade das comunicações feitas pelo terapeuta. Se as perceber como mera “aceitação formal, técnica”, ele não confiará no que vê e ouve, e elas não terão qualquer efeito positivo. Entretanto, o cliente saberá que o terapeuta realmente o aceita e o compreende, quando suas comunicações forem frutos de uma atitude alinhada cognitiva e afetivamente para o terapeuta.
É precisamente neste ponto que devemos enfatizar a formação do terapeuta. Não para ensiná-lo como se comportar perante o cliente, mas para, através dos encontros com os colegas, da facilitação destes e do professor, e da inspiração dos textos teóricos, ajudá-lo a se conhecer melhor, a se tornar mais congruente, capaz de compreender empaticamente outra pessoa, de aceitá-la de forma incondicional e de explicitar essas atitudes para si mesmo e para as pessoas com quem pretende estar em contato terapêutico. Enfim, para ajudá-lo a ser terapêutico.
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