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O papel do psicólogo é avaliar se o indivíduo está emocionalmente preparado para a cirurgia bariátrica, e ajudá-lo a compreender o processo como um todo, desde as consultas preparatórias até as consequências de curto e longo prazo da cirurgia.
É importante deixar claro que o Relatório Psicológico (Laudo) não é , e não deve ser, o principal objetivo dos encontros com o Psicólogo. O importante é o conteúdo trabalhado durante as entrevistas, descobertas que emergem durante o tratamento, e que serão fundamentais para o sucesso do processo de emagrecimento, do qual a cirurgia é apenas uma parte.

Direto da fonte: Site da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica
http://sbcb.org.br

Por que preciso ver um psicólogo antes da cirurgia da obesidade?
A Psicologia tem foco preventivo e educativo, bem como de acompanhamento dos processos individuais, isto é, de como cada um vive sua experiência de emagrecimento, que se dá de forma rápida e muitas vezes surpreendente. Junto com o novo corpo, as relações familiares e sociais se transformam, porque a relação do indivíduo consigo próprio também muda. É difícil imaginar que ao emagrecer algo possa mudar para pior, mas novos fatores de stress surgem. Casos como ciúmes do(da) parceiro(a), rivalidades no ambiente de trabalho, desejo de liberdade que antes não existia devido à condição de isolamento que a própria obesidade trazia, inveja de amigas(os) que gostariam de estar na mesma situação de perda de peso, etc. Outro fator é a discordância de tempo entre cirurgia e transformação psíquica: se a cirurgia demora em média de 90 minutos a transformação do estilo de vida de uma pessoa leva anos. Seu jeito de se alimentar, o engajamento em exercícios físicos, adaptação a novas rotinas de sono, novo ritmo alimentar, adaptação ao hábito de ingerir suplementos alimentares. De modo similar aos ex-fumantes que ficam com horror ao cheiro de cigarro, não é raro que indivíduos que foram obesos mórbidos fiquem ansiosos com restaurantes do tipo rodízio, em que todos comem muito e/ou rápido demais. Psicólogos são profissionais orientadores e facilitadores do processo de transformação, no caso, da cirurgia bariátrica.


Para que serve o preparo psicológico para a cirurgia?
O preparo psicológico envolve o levantamento de dados históricos pessoais e dados da história familiar permitindo que a pessoa candidata à cirurgia bariátrica possa perceber o que é pertinente ao fator obesidade e o que está sendo projetado na obesidade e na verdade não lhe pertence. Muitas vezes existem expectativas depositadas no emagrecimento que não serão cumpridas com a perda de peso, pois dizem respeito ao tratamento de um quadro depressivo, ansioso, ou mesmo de um processo de imaturidade diante da vida. Frustrações com os resultados cirúrgicos devido às expectativas mal colocadas tendem a colocar na cirurgia culpabilidades que não lhe cabem. Não é raro ouvir um comentário de que alguém deprimiu com a cirurgia bariátrica quando a depressão já estava na entrevista pré-operatória. O paciente deve saber que cirurgia para perda de peso não trata Pânico, Depressão ou Transtorno Bipolar. Esses transtornos devem receber tratamento paralelo à cirurgia.


Preciso fazer acompanhamento psicológico após a cirurgia?
Acompanhamento psicoterapêutico é saudável nos dias estressantes de hoje. É uma prática de higiene mental. Mas só funciona se há demanda do próprio indivíduo. Não podemos porém, dizer que uma cirurgia bariátrica só funcionará se a pessoa se submeter a uma psicoterapia após o procedimento cirúrgico. O ser humano é altamente adaptável e seu psiquismo é munido da capacidade de adaptar-se à sua nova realidade. Mas se o stress for intenso demais para sua estrutura, poderá adoecer. Daí a necessidade de um profissional psicólogo competente na equipe, bem como de um psiquiatra que possa prescrever psicofármacos, se necessário.


Preciso comunicar a minha família sobre a cirurgia?
Este é um fator fundamental, dados os riscos implicados no procedimento e todos os cuidados pós-operatórios nele implicados. Em caso de insistência no sigilo, a cirurgia deve ser contraindicada.


E se eu ficar ansioso antes da cirurgia?
Um certo grau de ansiedade é considerado normal. Muito mais preocupante é o indivíduo que não se conecta com a realidade de sua experiência. Entretanto, alguns medicamentos podem ser usados para diminuir o grau de ansiedade pré-cirúrgica e não prejudicam cicatrização. Tanto anestesistas, cirurgiões como psiquiatras têm conhecimento dessa área.


Quais as complicações psicológicas mais freqüentes depois da cirurgia?
Nos primeiros 15 dias a ansiedade é pertinente, dado ao fato de que o emagrecimento almejado ainda não ocorreu, ocorre a privação alimentar principalmente de açúcares que têm papel fisiológico importante sobre o humor e há certa limitação física. Nos próximos 15 dias, permanece a privação da mastigação, que têm importante função na descarga da agressividade (morder, cravar os dentes é uma descarga motora importante para seres providos de dentes). Dependendo do perfil psíquico de cada um, pode haver incremento do comportamento explosivo e humor irritativo ou do isolamento depressivo. Se houver evolução para um quadro psicopatológico com os critérios avaliativos essenciais, há necessidade de tratamento.


A obesidade é um problema psicológico?
Não. A obesidade é uma doença que vem acompanhada de uma série de complicações da saúde global do indivíduo ou de outras doenças. É comum que o indivíduo apresente pressão arterial alta, dores cervicais, bem como ansiedade, agitação psíquica ou depressão. A compreensão dos estados do humor é de co-morbidade, da mesma forma como se compreende as demais manifestações da saúde do obeso. Deste modo, merecem atenção e tratamento.


Psicologia - O Papel do Psicólogo na Cirurgia Bariátrica

Sem sombra de dúvida, qualquer psicólogo que já tenha atuado no campo das cirurgias, e em especial, na cirurgia bariátrica, concordará em aceitar que nosso paciente não é um “cliente” para psicoterapia, e não vem com demanda para análise, como nossos colegas psicanalistas diriam. De modo inverso, chega como quem vem retirar um mal, ou como quem quer reformar uma roupa que não lhe cai bem. Quer dali sair sem aquele defeito, ou mazela, sem maiores questões ou reflexões sobre causas ou efeitos das reformas realizadas.
Esse modelo tão particular de indivíduo exigiu do psicólogo bariátrico, se é que assim podemos chamar essa nova categoria que vem surgindo, um tipo de trabalho bem específico, que inclui o estudo da fisiologia, da psicopatologia, da genética, dos modelos relacionais de casal e familiares e também do trabalho em equipes multidisciplinares.
Ao receber o paciente deparamo-nos com indivíduos derrotados por múltiplas tentativas de dietas que faliram, dada à força de sua genética. A obesidade, a compulsão a comer, a depressão, a doença bipolar e toda a fisiologia que subjaz à morbidez de seu estado, bem como aos maus resultados de suas tentativas vãs de solucionar seu problema, tem de ser consideradas e estudadas pelo profissional da Psicologia.
Esse cabedal teórico acima relacionado dará ao psicólogo  condições de exercer seu primeiro papel fundamental: o acolhimento. Tomando desse primeiro instrumento ele partirá para sua estratégia básica de trabalho que é a anamnese, palavra advinda do grego, que significa recordação. É através da recordação, da repetição da própria história, que nosso paciente perceberá os lapsos e tropeços que realizou, não apenas em suas dietas, mas em sua própria vida. O profissional irá, com esse processo de acolhida, permitir a catarse, pois ali, na sala do psicólogo, não há julgamento moral, censura social ou aconselhamento do tipo fraterno, que implica em expectativas. O que se requer do paciente é um compromisso consigo próprio, com sua saúde, com sua história e com o sucesso de sua própria saúde, bem como com o resultado cirúrgico.
Esbarramos na questão do tempo, pois nosso paciente vive em estado acelerado, como se não suportasse ser obeso mais nem um dia, mesmo tendo sido “a vida toda” de acordo com seu relato. E também nossos serviços são acelerados, porque vivemos em mundos competitivos e hipertímicos. Aqui o psicólogo se defronta com os diferentes ritmos de práticas de cada profissional, do fisioterapeuta ao nutricionista, do clínico ao anestesista, cada um com seu tempo de atuação.  
Assim, quando se fala em preparar o paciente para a cirurgia bariátrica, pode-se usar a metáfora da gestação e do parto, pois nenhum parto e nenhuma gestação é referência para outro, e não há preparo para parir. A experiência se constitui como única. O que cabe ao profissional da Psicologia é levantar dados durante a anamnese, resgatar um bom histórico familiar genético e emocional, de doenças psiquiátricas e vivências traumáticas; verificar na vida do próprio indivíduo a presença de doenças do campo afetivo, averiguar tendências genéticas para transtornos do humor e trabalhar dentro de uma linha informativa e preventiva. Devemos alertar nosso paciente e a equipe sobre a condição em que se encontra o dono do Sistema Digestório e recordar que há um outro sistema complexo ligado a ele, o tal do Sistema Nervoso.
Quando possível, trabalhar junto a familiares conscientizando de que a cirurgia bariátrica não irá reprogramar a genética do operado, mas no máximo tentar enganá-la, produzindo um magro artificialmente, e que isso terá um custo. Mais que isso, alertar que a vida não perdoa quem é inadimplente com ela. Falhas nutricionais repercutirão em problemas neurológicos e irão mimetizar quadros psiquiátricos sérios. Um cérebro mal nutrido jamais funcionará bem, e por isso não produzirá um indivíduo feliz.
O Psicólogo tem, portanto, na função bariátrica, um papel recheado de atribuições. Ele informa, ouve, espelha, deixa acontecer, acolhe, comemora e acima de tudo sofre com seu paciente, para que ele encontre sua própria saúde.



Psicologia - Paradoxos Alimentares da Obesidade
Quem já não se sentiu frustrado diante do espelho!? Normalmente, quando o verão se aproxima, observamos nossos pontos fracos com espírito especialmente crítico. Concluímos que a única solução é emagrecer. Os doces são banidos e os manuais de dieta passam a orientar nossa lista de compras. Convém saber, entretanto, que o emagrecimento eficaz é estatisticamente raro, porque a psicologia do comportamento alimentar é cheia de surpresas.
Pesquisas recentes demonstram que, ao tentarmos controlar nossos hábitos alimentares mediante técnicas e dietas equivocadas, só conseguimos engordar mais. Nos países industrializados, emagrecer tornou-se um esporte nacional. As revistas oferecem todos os dias, novas e milagrosas dietas. Paradoxalmente, o excesso de peso e obesidade aumentam. Nos Estados Unidos, a proporção de obesos passou de 14,5% em 1980 para 22,5% em 1991. A proporção dos que "só” tinham excesso de peso chegou a quase 50% da população. No Brasil, de 1974 a 1997 o número de adolescentes obesos assou de 37% para 12,6%, Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, 6,7 milhões de crianças e adolescentes são obesos no país.
Mas o que significam noções como “excesso de peso” e “obesidade”? No ser humano, os valores normais de peso mantêm estreita relação com a altura. Esta relação é estabelecida pelo Índice de Massa Corporal (IMC), que divide o peso em quilogramas pelo quadrado da estatura em metros. os valores do peso considerados ideais correspondem ao IMC associado a uma menor taxa de mortalidade. Segundo os critérios propostos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o peso normal situa-se entre 18,5 e 25 kg/m2. Os valores situados entre 25 e 30 kg/m2 indicam excesso de peso, os superiores a 30 kg/m2 mostram obesidade.
O excesso de peso ou a obesidade não são saudáveis e reduzem as expectativas de vida. As doenças cardiovasculares, o diabete e o derrame atingem de forma mais acentuada este grupo. Por outro lado, um peso abaixo do ideal está associado a uma mortalidade mais elevada que a média. Além disso, em idosos, o IMC correspondente à mortalidade mínima comporta valores superiores em duas ou três unidades.
Não está claro se o risco adicional atribuído à obesidade tem relação direta com o peso elevado e não com outros fatores relacionados! Os obesos se movem, em média, menos que pessoas com peso normal e sabemos que longas caminhadas cotidianas aumentam a expectativa de vida. Presume-se ainda que o padrão de dietas reiteradas, curtas e drásticas, habitual entre obesos, contribua para a mortalidade elevada; o mesmo pode ser afirmado da instabilidade de peso associada ao uso de medicamentos.
Além das consequências para a saúde, a obesidade tem efeitos sociais, sobretudo para mulheres. Estudos realizados nos Estados Unidos mostram que mulheres com excesso de peso têm mais dificuldade para casar-se. Homens e mulheres com um IMC elevado sofrem mais para encontrar emprego e, quando o fazem, ganham menos que colegas de peso normal.
Dadas as consequências negativas do excesso de peso e da obesidade, é compreensível a generalização do desejo de emagrecer. Uma pesquisa realizada em 1991 nos Estados Unidos revelou que 33% das mulheres e 20% dos homens estavam naquele momento tentando emagrecer. As reduções esperadas eram, em média, de 10 kg nas pessoas com um leve excesso de peso e de 30 kg nas obesas, mas os resultados efetivamente obtidos eram, respectivamente, de 5,6 e 8,2 kg,bem inferiores às expectativas. As tentativas de dieta duram, em média, de cinco a seis meses. Com a ajuda de um profissional, no âmbito de uma terapia comportamental, por exemplo, o êxito aumenta um pouco. Pesquisa realizada entre 1985 e 1990 mostrou que os participantes de um programa deste tipo emagreceram em média 8,5 kg em um prazo médio de cinco meses. É preciso considerar que são supostamente os casos mais desesperados que recorrem a programas dietéticos supervisionados por um profissional.
Embora uma dieta para emagrecer possa atingir seu objetivo, a perda de peso obtida raramente é suficiente para os obesos chegarem a um peso normal. Além disso, é raro conseguir manter a perda de peso deforma duradoura. Participantes de programas controlados por profissionais ganharam, em média, mais de 3 kg um ano após o término da terapia.
Quando consideramos períodos mais longos, os resultados das dietas são ainda piores. Os participantes de um determinado programa terapêutico que no início haviam perdido entre 8% e 12% de peso estavam, quatro anos depois, somente 4% abaixo do peso original. Naturalmente, há casos em que as pessoas atingem o peso normal e conseguem mantê-lo, mas são raros. Avalia-se que entre 90% e 95% dos participantes de programas de dieta retomam, depois de cinco anos, ao peso original, para logo aumentá-lo. Esta dura realidade foi admitida até mesmo pelos defensores das dietas.
As opiniões relativas às dietas mudaram também em outros aspectos. Atualmente, os nutricionistas não só admitem a ineficácia habitual das dietas, mas começam a considerar seus riscos e efeitos colaterais, como a  obsessão pelo peso e pela imagem ideal, um dos principais fatores de risco para o surgimento de transtornos de comportamento alimentar entre os adolescentes.


POR QUE COMEMOS?
 A descoberta, nos anos 90, do hormônio antiobesidade -a leptina -gerou grandes esperanças de se encontrar as causas genéticas do excesso de peso. A leptina é produzida e liberada pelas células adiposas. Quanto maior o conteúdo lipídico das células, maior será sua produção de leptina. Este hormônio, atuando sobre sensores cerebrais, regula a ingestão de comida e o armazenamento dos lipídios. Animais que apresentam uma mutação do gene correspondente não podem secretar a leptina e se tornam extremamente obesos.
Seria razoável pensar que as pessoas obesas não produzem suficiente leptina, mas observou-se o fenômeno oposto: os obesos têm um nível de leptina elevado em relação ao peso do corpo. Pesquisadores suspeitam que a sensibilidade dos receptores da leptina nos obesos seja menor.
A dificuldade que obesos experimentam para atingir e manter um peso normal não prova que a obesidade seja hereditária. Mas é inquestionável que os fatores genéticos exercem influência considerável na obesidade. Estudos sobre a genética do comportamento, porém, demonstram que o IMC é herdado conforme uma proporção que varia entre 25% e 40%. Há, portanto, ampla margem de liberdade para o comportamento individual. Outro indício que corrobora esta tese é fornecido pela observação de que a obesidade aumentou dramaticamente nos últimos decênios. Ora, é improvável que um gene da obesidade tenha se propagado com esta velocidade entre a população.
Assim, felizmente, a maioria das pessoas pode decidir quanto quer exceder em sua alimentação. O que de fato limita as tentativas de emagrecimento são o excesso de gorduras na alimentação e a falta de atividade física.
Por que as pessoas comem mais do que pretendem, mesmo quando querem emagrecer? Há décadas esta pergunta ocupa os psicólogos. As tentativas de resposta partem da hipótese de que há uma diferença na regulação do comportamento alimentar entre as pessoas obesas e as de peso normal. O que leva alguém a começar a comer? O que determina a quantidade de comida que ingerimos? Quando damos uma refeição por concluída? As respostas parecem simples: comemos quando temos fome e paramos de comer quando estamos saciados. Isto pode ser verdade para pessoas normais. No caso dos obesos, porém, estes sinais do organismo parecem desempenhar um papel menor na regulação do comportamento alimentar.
Em 1968, Stanley Schachter, psicólogo social da Universidade de Columbia, em Nova York, formulou sua teoria da externalidade do comportamento alimentar. Segundo Schachter,os obesos simplesmente não discernem muito bem se estão com fome ou saciados.
A sua ingestão de alimentos dependeria muito mais de estímulos externos: a hora do dia, os aromas exalados pela comida ou a apresentação dos pratos expostos. O obeso típico seria alguém que continua a comer por prazer, ainda que esteja saciado.
Schachter verificou sua teoria com estudos originais, aproveitando situações cotidianas. Observou, por exemplo, que os judeus obesos tinham menos dificuldade de respeitar o jejum no dia de Yom Kippur quando permaneciam mais tempo na sinagoga, isto é, longe dos estímulos culinários. Nos de peso normal, ao contrário, não constatou nenhuma relação significativa entre a duração da permanência na sinagoga e a dificuldade de respeitar o jejum. Em outro estudo, um psicólogo descobriu que os pilotos de avião obesos tinham, após um vôo entre Europa e Estados Unidos, menos dificuldade para se adaptar aos horários locais de refeição que os seus colegas de peso normal. Neste caso, portanto, a regulação externa do comportamento alimentar era uma vantagem.
Após o entusiasmo inicial, surgiram as críticas: as correlações descritas eram frequentemente fracas e nem sempre os resultados das pesquisas podiam ser reproduzidos. Além disso, a teoria não explicava as diferenças na regulação do comportamento alimentar. Peter Herman, da Universidade de Toronto, Canadá, tentou enfrentar essas críticas propondo a hipótese da "contenção". Argumentou que quando obesos jejuam para reduzir o peso, reprimem a ingestão de comida; ora, este seria o fator que os tornaria especialmente suscetíveis aos estímulos ligados à alimentação.
Herman elaborou um questionário para medir a contenção alimentar, cujos valores apresentaram uma correlação com o IMC. Em uma amostra formada por estudantes, 85% dos obesos entraram na categoria dos comedores reprimidos; apenas 15% eram comedores normais. Posteriormente, Herman, em colaboração com Janet Polivy, ampliou sua teoria em um "modelo limite do comportamento humano". Segundo esta hipótese, os comedores reprimidos fixam uma "dieta-limite" para controlar a ingestão de alimentos, na tentativa de modificar, com regras auto-impostas, a quantidade de alimentos e bebidas que ingerem.


PERDA DE CONTROLE
A orientação consciente do comportamento alimentar exige concentração e atenção e é, por isto, mais dispendiosa que a regulação automática. Um comedor reprimido consegue manter a dieta quando está concentrado e motivado, mas dois fatores podem alterar o controle consciente do comportamento alimentar. O primeiro é representado por qualquer distração que impeça a pessoa reprimida de controlar voluntariamente a ingestão de comida: um aborrecimento, por exemplo, pode bastar para que deixe de atentar para o que e quanto come. O segundo ocorre quando o comedor reprimido percebe que ultrapassou o limite de sua dieta e então renuncia totalmente ao controle sobre seu comportamento alimentar comendo, até alcançar o nível mais alto de sua zona de indiferença.
Esta suposição foi testada pela primeira vez em um experimento que Peter Herman publicou em 1985, junto com Deborah Mack, e cujos resultados foram confirmados por várias pesquisas realizadas posteriormente. Ofereceu-se a alguns dos participantes, todos comedidos, uma bebida bastante calórica, cujo consumo implicava clara transgressão de seus limites dietéticos. No experimento seguinte, as pessoas deviam avaliar o sabor de diversos tipos de sorvete. Os pesquisadores não estavam interessados nas avaliações, mas na quantidade de sorvete ingerido. Os comedores normais, após terem ingerido a bebida rica em calorias, comiam menos sorvete que quando não haviam bebido. A reação dos reprimidos foi diferente. Após a ingestão da bebida calórica, comeram mais gelado que como estômago vazio. Por quê? Porque sua dieta, após a ingestão da bebida, estava anui nada e, assim, continuaram a comer até atingir o limite máximo da saciedade.
Um dos pontos fracos do modelo proposto é sua limitada capacidade explicativa. Embora comprove algumas conseqüências da ingestão reprimida de comida, não justifica por que a pessoa adota este padrão de conduta. Em segundo lugar, há uma discrepância entre o conceito de auto-repressão alimentar que baseia a teoria e Q que se emprega efetivamente ao se medir a ingestão reprimida de comida. Ainda que, segundo a teoria, a pessoa que reprime a alimentação esteja tentando seguir neste momento uma dieta, o questionário para a avaliação da contenção alimentar mede uma atitude mais duradoura. Os comedores reprimidos crônicos seriam pessoas que têm em geral a intenção de emagrecer (ou pelo menos não engordar), mas que não estão naquele momento necessariamente tentando emagrecer e que, assim, nem sempre se impõem regras dietéticas estritas.
Um terceiro ponto débil da teoria é que ela não leva suficientemente em conta a motivação do prazer. Se fosse perguntado por que transgrediram sua dieta, os comedores reprimidos talvez não respondessem que não souberam respeitar as regras que eles mesmos se impuseram. É mais provável que respondessem que comeram em demasia por prazer.
ara eliminar estes pontos fracos, propus, junto com meus colaboradores, um "modelo de objetivos conflitantes do comportamento alimentar". Segundo nossa teoria, um problema fundamental dos obesos é que gostam de comer bem. Em um estudo clínico, pacientes obesos e de peso normal foram alimentados com uma dieta consistente em um caldo insípido. O consumo calórico dos pacientes obesos diminuiu em torno de um quarto da quantidade necessária para manter seu peso. Nos de peso normal, pelo contrário, não foram observadas diferenças no consumo.
Até que ponto o gosto pela boa mesa constitui um problema pode depender em muito das preferências de cada um. Pessoas que gostam de peixe e de salada dificilmente terão problemas de peso. Diferente é a situação dos que gostam de hambúrguer, embutidos e outros alimentos ricos em gordura. A maioria dos obesos pertence a este último grupo e, por isso, ingerem mais gordura.
Evidentemente, estes hábitos alimentares aumentam o risco de engordar. A insatisfação com o peso costuma motivar o início de uma dieta, que resultará satisfatória, pelo menos a curto prazo, Mas como estes indivíduos tendem a recuperar o peso em breve, iniciam uma nova dieta. Depois de alguns ciclos, tornam-se comedores reprimidos. Seu comportamento alimentar caracteriza-se assim por um conflito entre objetivos opostos: querem desfrutar comida, mas, ao mesmo, controlar o peso.
Diante de uma situação de conflito entre objetivos, o comportamento dependerá sempre da motivação predominante no momento. Assim, para que um comedor reprimido mantenha uma dieta baixa em calorias, a motivação para controlar o comportamento alimentar deve ser mais intensa que a motivação do prazer. Isto só ocorre quando estão realmente motivados e empenhados em seguir a dieta.


VENCER O MENU
Infelizmente, o desenvolvimento de uma refeição é estruturado de tal forma que, no início, dominam os estímulos que despertam as motivações prazerosas. Temos apetite e a comida exala aromas sedutores. No restaurante, a leitura do menu estimula o apetite e, em um piscar de olhos, o prato está sobre a mesa. Somente quando o prato está vazio ou quando sentimos o cinto apertar é que surge a motivação do controle. Recordamos então, com sentimento de culpa, as boas intenções de seguir rigidamente a dieta nesta noite. Mas, já que a dieta foi deixada de lado, podemos concluir a refeição com uma boa sobremesa!
Neste jogo de alternâncias se misturam fatores cognitivos. É preciso mais atenção para conseguir controlar o peso que para desfrutar a comida. Qualquer distração durante a refeição reduzirá nossa capacidade de controlar as calorias que ingerimos. O hedonismo ganha a partida.
Outro problema aflige ainda os comedores reprimidos. A menos que estejam passando fome neste momento preciso, a motivação que os induz a controlar as calorias provoca o efeito contrário. O leitor, certamente, conhece o fenômeno: quando queremos afastar da mente uma idéia incômoda, esta retorna com mais intensidade. Algo parecido ocorre quando revelamos, na primeira ocasião que surge, algo que queríamos manter em segredo. Assim, supomos que, na ausência de controle cognitivo, a motivação crônica para emagrecer pode ter a conseqüência paradoxal de favorecer uma maior ingestão de alimentos. Em outras palavras: os comedores reprimidos comem mais justamente porque querem comer menos!
Esta suposição paradoxal baseia-se na "teoria dos processos paradoxais", publicada em 1994 por Oaniel Wegner, hoje da Universidade Harvard. Alguns processos invalidam nossas intenções e provocam até mesmo a situação que pretendíamos evitar. Wegner comprovou, em numerosos estudos, a influência destes processos paradoxais sobre o pensamento e o comportamento. Observou que as pessoas só eram capazes de reprimir determinados pensamentos ou tendências comportamentais quando se concentravam nesta tarefa; se distraídas, atuavam de forma contrária. Segundo Wegner, o êxito de nossos esforços para nos controlarmos depende, sobretudo, da quantidade de recursos cognitivos investidos. Em suas pesquisas, obrigou os indivíduos a investirem seus recursos cognitivos em outras tarefas. A origem da diminuição da capacidade cognitiva pode ser conseqüência de uma redução da motivação para o controle. Seria este o caso dos comedores reprimidos que não estão em fase de dieta.
A comprovação da presença de processos paradoxais em tais circunstâncias foi fornecida por um estudo em que os participantes deviam opinar sobre o sabor de diversos tipos de sorvete. Em seguida, foram solicitados a anotar por escrito os pensamentos que tiveram durante o teste. O que interessava para a pesquisa não eram os juízos qualitativos emitidos, mas os pensamentos referentes ao controle das calorias, como por exemplo: "Cuidado com o sorvete, isto engorda". O resultado confirmou as expectativas: este tipo de pensamento era mais freqüente entre os comedores reprimidos, especialmente se neste momento tentavam seguir uma dieta de emagrecimento. Além disso, os reprimidos comeram tanto menos quanto mais intensos eram os seus pensamentos de controle, ao passo que os reprimidos que não estavam de dieta consumiram até mesmo mais sorvete. Assim, a vontade crônica de emagrecer, sem uma motivação aguda para controlar o consumo de alimentos, leva a uma ingestão excessiva. Uma variante desta pesquisa ( quadro acima) forneceu resultados similares.
Mas então o que devem fazer os obesos? O melhor conselho não seria comer menos, mas comer de forma diferente. Em vez de reduzir as calorias, deveriam reduzir a gordura de sua alimentação. Ainda que, inicialmente, esta alimentação pareça menos saborosa, a experiência ensina que logo passarão a apreciá-la. Com isto se elimina a necessidade de controle contínuo das calorias.
Além disso, o excesso de peso deve ser enfrentado não só agindo sobre a ingestão de calorias, mas intervindo também sobre o consumo de energia. Isto não quer dizer que é preciso começar a correr agora mesmo. Usar menos o carro e caminhar mais asseguram a redução do peso. Porém, não se deve esperar milagres: a combinação de uma alimentação pobre em gorduras com o exercício físico ajuda a combater a obesidade, mas não a elimina; a vantagem desta combinação é que reduz os riscos para a saúde associados à obesidade.
O meio familiar também pode se beneficiar de uma mudança de atitude que favoreça uma alimentação mais saudável. O fato de que pais obesos costumam ter filhos obesos não é só uma questão hereditária, mas também dos hábitos alimentares transmitidos. A obesidade infantil pode ser combatida ou prevenida mediante uma alimentação saudável no âmbito familiar. Na minha opinião, este ponto é crucial para o desenvolvimento posterior do indivíduo.